sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Uma carta escrita e enviada a Caros Amigos



Sou estudante de jornalismo e acabo de chegar de uma palestra do jornalista e professor universitário Hamilton Otávio de Souza. Convidado para falar sobre sua atividade na revista Caros Amigos, já que a palestra era para futuros jornalistas, o palestrante preferiu informar o público sobre os números de analfabetismo e a ineficiência de políticas públicas no Brasil.

Senhor Hamilton, gostaria de perguntar, humildemente: por que falar de algo que já é esperado que um universitário saiba? Não que eu soubesse que existem cerca de 10 milhões de analfabetos no Brasil, mas é minha obrigação, como universitária, saber que o país onde vivo tem números vergonhosos quanto o assunto é educação e desenvolvimento humano. É minha obrigação, também, não ser ingênua em relação às políticas públicas criadas por aqueles que me governam. Mas, na mesma condição de universitária, gostaria de ter ouvido um outro tipo de política. Não aquela dos partidos, mas a da revista a qual o senhor se responsabiliza. Gostaria de saber, por exemplo, por que uma revista de conteúdo como a Caros Amigos cultiva uma política editorial de escrever somente para uma pequena elite intelectual? Lembro do senhor ter falado que a revista busca um leitor que já tenha opinião formada. Que jornalismo é esse que tem como objetivo incluir uma parcela da população que sempre foi incluída pelo sistema educacional, pelos bairros centrais das cidades, pelos cadernos de cultura e pelas bibliotecas públicas? Que revista é essa que se orgulha em chamar de “caros amigos” somente aqueles que compartilham de sua ideologia? Resenhem menos. Basta ao jornalismo de panfleto.

Não que eu seja a pessoa mais indicada a fazer isso, pois só tenho 21 anos e não possuo a nem metade da experiência do senhor, mas eu aconselharia que a Caros Amigos dialogasse menos com sistemas e mais com pessoas. Parem de excluir aqueles que são vítimas dos problemas que vocês mesmos retratam. Não culpem somente o governo pelo sistema educacional do Brasil. Lembrem-se de que meios de comunicação detêm a palavra. Por isso, saibam democratizá-la mais, pluralizá-la no sentido mais humano da questão. Se preocupem mais com pessoas, com aqueles que sempre são excluídos por tudo, inclusive pela mídia.

E como disse Clarice Lispector, “não sei qual a minha culpa, mas peço perdão." Desculpem-me se em algum momento fui grossa ou injusta. Esse é apenas um ponto de vista de alguém que ainda vive sob a bolha das idealizações do mundo universitário. Não gosto de acreditar que o jornalismo se configura em latifúndios com conquistas de terras e espaços cercados. E como a própria Caros Amigos publica em suas páginas, é preciso ter e defender opinião.

Quanto ao meu professor que trouxe o palestrante, fica a dica: se dedique mais a debates do que a palestras. Microfone preso a uma só mão é coisa de apresentador, não de teóricos que, possuidores de alma prolixa e rica de bom conteúdo, merecem debater e serem debatidos. Reserve a palestra para ganhadores de realites shows e não para mentes como a de Hamilton.

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